Neurociência Clínica · Psicologia da Depressão
Uma das teorias mais influentes sobre a depressão — e uma das mais notáveis autocorreções da ciência. Cinquenta anos depois de propô-la, o próprio autor a inverteu, com base na neurobiologia que ela mesma ajudou a revelar.
No final dos anos 1960, o jovem Martin Seligman e seu colega Steven Maier observaram um fenômeno inesperado durante experimentos de condicionamento em cães. Animais expostos a choques elétricos dos quais não podiam escapar — independentemente do que fizessem — desenvolviam, depois, uma passividade notável: mesmo quando colocados numa situação em que a fuga era possível e fácil, simplesmente não tentavam. Deitavam-se e suportavam o choque. Cães do grupo de controle, que nunca haviam experimentado a incontrolabilidade, aprendiam a escapar rapidamente. Algo havia sido aprendido com a experiência do incontrolável — e esse algo era a desistência.
Seligman e Maier (1967) interpretaram o fenômeno como "desamparo aprendido" (learned helplessness): os animais teriam aprendido que suas ações não tinham efeito sobre os resultados — que havia independência entre comportamento e consequência — e generalizaram essa expectativa para situações novas, deixando de tentar mesmo quando o controle era possível. A teoria foi rapidamente estendida ao comportamento humano e tornou-se um dos modelos mais influentes para entender a depressão: a percepção de incontrolabilidade levaria à passividade, ao déficit motivacional e ao afeto deprimido característicos do transtorno.
A versão original tinha um problema: nem todas as pessoas expostas a eventos incontroláveis desenvolviam desamparo. Abramson, Seligman e Teasdale (1978) propuseram uma reformulação baseada na teoria da atribuição. O que determinava o desamparo não era a incontrolabilidade em si, mas como a pessoa explicava a causa dela. Atribuições internas ("a culpa é minha"), estáveis ("será sempre assim") e globais ("afeta tudo na minha vida") produziam desamparo profundo e duradouro. Atribuições externas, instáveis e específicas protegiam contra ele. Esse "estilo explicativo" tornou-se um conceito central da psicologia clínica e fundamento da terapia cognitiva da depressão.
"Não é a adversidade que determina o desamparo, mas a forma como explicamos a adversidade a nós mesmos."
Abramson, Seligman & Teasdale · Journal of Abnormal Psychology, 1978Em 2016, num artigo notável publicado na Psychological Review, os autores originais — Maier e Seligman — fizeram algo raro na ciência: declararam que sua teoria de cinquenta anos estava, em um aspecto fundamental, invertida. Décadas de pesquisa em neurociência sobre os circuitos do tronco encefálico, particularmente o núcleo dorsal da rafe e o córtex pré-frontal ventromedial, mostraram que a passividade e o medo diante do choque incontrolável não são aprendidos. São a resposta-padrão, automática, mediada por circuitos serotoninérgicos do tronco encefálico, a uma adversidade prolongada.
O que o organismo de fato aprende, quando o controle existe, é a presença do controle. A detecção da controlabilidade pelo córtex pré-frontal ventromedial ativa uma via que inibe os circuitos de passividade do tronco encefálico. Em outras palavras: o desamparo não é aprendido — o que é aprendido é o seu oposto, a expectativa de controle, que aprende a suprimir uma resposta passiva que já estava lá por padrão. A teoria precisou ser reescrita de cabeça para baixo, e seus próprios criadores o fizeram à luz da evidência neurobiológica.
A trajetória de Seligman a partir desse trabalho é instrutiva. O estudo do desamparo o levou ao estudo de seu inverso — o otimismo aprendido e os fatores que conferem resiliência — e, eventualmente, à fundação do movimento da psicologia positiva nos anos 1990. A reformulação neurocientífica reforça uma mensagem terapêutica concreta: como a percepção de controle é ativamente construída pelo córtex pré-frontal, intervenções que restauram a sensação de agência e controlabilidade têm base biológica direta para aliviar estados depressivos. A terapia cognitivo-comportamental, ao trabalhar o estilo explicativo e a percepção de eficácia, opera precisamente sobre esse circuito.