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Neurociência Clínica · Psicologia da Depressão

Desamparo aprendido:
das origens da depressão à reformulação neurocientífica

Uma das teorias mais influentes sobre a depressão — e uma das mais notáveis autocorreções da ciência. Cinquenta anos depois de propô-la, o próprio autor a inverteu, com base na neurobiologia que ela mesma ajudou a revelar.

Baseado em: Seligman & Maier (1967) · Abramson et al. (1978) · Maier & Seligman (2016)13 min de leitura

No final dos anos 1960, o jovem Martin Seligman e seu colega Steven Maier observaram um fenômeno inesperado durante experimentos de condicionamento em cães. Animais expostos a choques elétricos dos quais não podiam escapar — independentemente do que fizessem — desenvolviam, depois, uma passividade notável: mesmo quando colocados numa situação em que a fuga era possível e fácil, simplesmente não tentavam. Deitavam-se e suportavam o choque. Cães do grupo de controle, que nunca haviam experimentado a incontrolabilidade, aprendiam a escapar rapidamente. Algo havia sido aprendido com a experiência do incontrolável — e esse algo era a desistência.

A teoria original: aprender que nada importa

Seligman e Maier (1967) interpretaram o fenômeno como "desamparo aprendido" (learned helplessness): os animais teriam aprendido que suas ações não tinham efeito sobre os resultados — que havia independência entre comportamento e consequência — e generalizaram essa expectativa para situações novas, deixando de tentar mesmo quando o controle era possível. A teoria foi rapidamente estendida ao comportamento humano e tornou-se um dos modelos mais influentes para entender a depressão: a percepção de incontrolabilidade levaria à passividade, ao déficit motivacional e ao afeto deprimido característicos do transtorno.

A reformulação atribucional (1978)

A versão original tinha um problema: nem todas as pessoas expostas a eventos incontroláveis desenvolviam desamparo. Abramson, Seligman e Teasdale (1978) propuseram uma reformulação baseada na teoria da atribuição. O que determinava o desamparo não era a incontrolabilidade em si, mas como a pessoa explicava a causa dela. Atribuições internas ("a culpa é minha"), estáveis ("será sempre assim") e globais ("afeta tudo na minha vida") produziam desamparo profundo e duradouro. Atribuições externas, instáveis e específicas protegiam contra ele. Esse "estilo explicativo" tornou-se um conceito central da psicologia clínica e fundamento da terapia cognitiva da depressão.

"Não é a adversidade que determina o desamparo, mas a forma como explicamos a adversidade a nós mesmos."

Abramson, Seligman & Teasdale · Journal of Abnormal Psychology, 1978

A grande inversão: o que a neurociência revelou

Em 2016, num artigo notável publicado na Psychological Review, os autores originais — Maier e Seligman — fizeram algo raro na ciência: declararam que sua teoria de cinquenta anos estava, em um aspecto fundamental, invertida. Décadas de pesquisa em neurociência sobre os circuitos do tronco encefálico, particularmente o núcleo dorsal da rafe e o córtex pré-frontal ventromedial, mostraram que a passividade e o medo diante do choque incontrolável não são aprendidos. São a resposta-padrão, automática, mediada por circuitos serotoninérgicos do tronco encefálico, a uma adversidade prolongada.

O que o organismo de fato aprende, quando o controle existe, é a presença do controle. A detecção da controlabilidade pelo córtex pré-frontal ventromedial ativa uma via que inibe os circuitos de passividade do tronco encefálico. Em outras palavras: o desamparo não é aprendido — o que é aprendido é o seu oposto, a expectativa de controle, que aprende a suprimir uma resposta passiva que já estava lá por padrão. A teoria precisou ser reescrita de cabeça para baixo, e seus próprios criadores o fizeram à luz da evidência neurobiológica.

Implicações clínicas e o nascimento da psicologia positiva

A trajetória de Seligman a partir desse trabalho é instrutiva. O estudo do desamparo o levou ao estudo de seu inverso — o otimismo aprendido e os fatores que conferem resiliência — e, eventualmente, à fundação do movimento da psicologia positiva nos anos 1990. A reformulação neurocientífica reforça uma mensagem terapêutica concreta: como a percepção de controle é ativamente construída pelo córtex pré-frontal, intervenções que restauram a sensação de agência e controlabilidade têm base biológica direta para aliviar estados depressivos. A terapia cognitivo-comportamental, ao trabalhar o estilo explicativo e a percepção de eficácia, opera precisamente sobre esse circuito.

A evolução da teoria em três atos

  • 1967 — Desamparo é aprendido: o organismo aprende que ações não têm efeito e generaliza a passividade.
  • 1978 — Reformulação atribucional: o estilo explicativo (interno, estável, global) determina a intensidade e duração do desamparo.
  • 2016 — Inversão neurocientífica: a passividade é o padrão automático do tronco encefálico; o que se aprende é a expectativa de controle, mediada pelo córtex pré-frontal.

Referências primárias

1
Seligman, M. E. P., & Maier, S. F. (1967). Failure to Escape Traumatic Shock. Journal of Experimental Psychology, 74(1), 1-9.
doi.org/10.1037/h0024514
2
Abramson, L. Y., Seligman, M. E. P., & Teasdale, J. D. (1978). Learned Helplessness in Humans: Critique and Reformulation. Journal of Abnormal Psychology, 87(1), 49-74.
doi.org/10.1037/0021-843X.87.1.49
3
Maier, S. F., & Seligman, M. E. P. (2016). Learned Helplessness at Fifty: Insights from Neuroscience. Psychological Review, 123(4), 349-367.
doi.org/10.1037/rev0000033
4
Seligman, M. E. P. (1972). Learned Helplessness. Annual Review of Medicine, 23, 407-412.
doi.org/10.1146/annurev.me.23.020172.002203