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Psicologia Social

Obediência à autoridade:
o experimento que redefiniu o mal

Em 1963, Milgram demonstrou que 65% de pessoas comuns administrariam choques potencialmente letais sob ordens de uma autoridade. Revisitamos o estudo à luz das críticas históricas, das replicações éticas e da relevância contemporânea para organizações e política.

Baseado em: Milgram (1963) · Perry (2013) · Burger (2009)13 min de leitura

O experimento de Stanley Milgram nasceu de uma pergunta perturbadora que o próprio pesquisador formulou enquanto acompanhava o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém, em 1961. Eichmann, um dos principais organizadores do Holocausto, defendeu-se argumentando que era apenas um funcionário que cumpria ordens. Hannah Arendt, cobrindo o julgamento para a New Yorker, cunhou a expressão "banalidade do mal" para descrever a normalidade desconcertante do acusado. Milgram quis testar empiricamente: até que ponto pessoas comuns obedecem a autoridades, mesmo quando isso implica prejudicar gravemente outras pessoas?

Metodologia: design e resultados

O experimento de obediência de Milgram, publicado no Journal of Abnormal and Social Psychology em 1963, recrutava participantes que acreditavam estar num estudo sobre memória e aprendizagem. Um ator interpretava o papel de "aluno" — que seria "punido" por erros com choques elétricos — enquanto o participante real era designado como "professor". O experimentador, com jaleco e ar científico, instruía o participante a aumentar progressivamente a intensidade dos choques, que iam de 15 a 450 volts em 30 incrementos, rotulados de "Choque leve" até "Perigo: Choque severo" e "XXX".

Os choques eram falsos — o "aluno" era um ator que simulava respostas de dor gravadas. Mas os participantes não sabiam disso. O resultado que chocou o mundo científico: 65% dos participantes atingiram o nível máximo de 450 volts — o patamar marcado "XXX" — mesmo ouvindo o ator gritar, implorar para parar e, nos estágios finais, silenciar completamente. Nenhum participante parou espontaneamente antes dos 300 volts.

O estado agêntico: por que obedecemos

Milgram desenvolveu a teoria do "estado agêntico" para explicar o fenômeno: em contextos hierárquicos, o indivíduo passa de um modo autônomo — no qual se sente responsável por suas ações — para um modo agêntico, no qual se percebe como instrumento da vontade de uma autoridade legítima. Nesse estado, a responsabilidade moral é psicologicamente transferida para cima na hierarquia. O participante não se torna indiferente ao sofrimento alheio — muitos exibiam tremores, suor, riso nervoso — mas continuava obedecendo, porque a estrutura da situação havia redefinido quem era moralmente responsável pelo que estava ocorrendo.

"Os sujeitos não eram perversos. Estavam obedecendo à autoridade de uma forma que é, de certa maneira, muito mais aterrorizante do que a maldade pura."

Stanley Milgram · Obedience to Authority, 1974

Críticas históricas e a investigação de Gina Perry

Em 2013, a jornalista e psicóloga australiana Gina Perry publicou Behind the Shock Machine, fruto de uma investigação exaustiva dos arquivos de Milgram e entrevistas com participantes sobreviventes. Perry levantou questões metodológicas sérias. Primeiro, evidências de que muitos participantes suspeitavam que os choques fossem falsos — o que comprometeria a validade interna do estudo. Segundo, notas dos experimentadores sugerindo que alguns continuavam a pressionar os participantes mesmo após o protocolo padrão, o que violaria os procedimentos descritos. Terceiro, relatos de participantes que experienciaram dano psicológico duradouro — que Milgram havia minimizado em suas publicações.

A pesquisa de Perry não invalidou os achados gerais — outros estudos independentes confirmaram que obediência à autoridade é um fenômeno robusto. Mas ela revelou que o experimento original era mais complexo, mais variável e potencialmente mais problemático eticamente do que a narrativa canônica sugeria.

A replicação de Burger (2009): ética e robustez

Jerry Burger, da Universidade de Santa Clara, conduziu em 2009 uma replicação ética, parando o procedimento nos 150 volts — o ponto em que o ator pedia explicitamente para ser liberado. Aprovado por um comitê de ética, o estudo excluiu pessoas com histórico de ansiedade ou problemas psicológicos. O resultado: 70% dos participantes continuaram além dos 150 volts. A cifra é numericamente próxima à de Milgram e sugere que o fenômeno persiste quatro décadas depois, em um contexto cultural e acadêmico profundamente diferente.

Referências primárias

1
Milgram, S. (1963). Behavioral Study of Obedience. Journal of Abnormal and Social Psychology, 67(4), 371–378.
doi.org/10.1037/h0040525
2
Burger, J. M. (2009). Replicating Milgram: Would People Still Obey Today? American Psychologist, 64(1), 1–11.
doi.org/10.1037/a0010932
3
Perry, G. (2013). Behind the Shock Machine: The Untold Story of the Notorious Milgram Psychology Experiments. The New Press.
PsycNET
4
Hollander, M. M., & Turowetz, J. (2017). Normalizing Trust: Participants' Immediately Prior Experience and Behavior in Milgram's Obedience Experiments. British Journal of Social Psychology, 56(4), 655–674.
doi.org/10.1111/bjso.12206
5
Blass, T. (1999). The Milgram Paradigm After 35 Years: Some Things We Now Know About Obedience to Authority. Journal of Applied Social Psychology, 29(5), 955–978.
doi.org/10.1111/j.1559-1816.1999.tb00134.x