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Psicologia do Desenvolvimento

Teoria do apego:
como os primeiros vínculos moldam a vida emocional

Bowlby rompeu com a ideia de que o bebê ama quem o alimenta. Ainsworth desenvolveu o método que tornou o apego mensurável. Juntos, criaram um dos paradigmas mais robustos da psicologia do desenvolvimento.

Baseado em: Bowlby (1969) · Ainsworth & Bell (1970) · Bretherton (1992)13 min de leitura

Por boa parte do século XX, a psicologia dominante — tanto a psicanálise quanto o behaviorismo — concordava num ponto: o bebê se vincula à mãe porque ela o alimenta. O amor seria um subproduto da redução da fome, um aprendizado secundário associado à satisfação de uma necessidade primária. John Bowlby, psicanalista britânico, suspeitava que isso estava profundamente errado. Sua experiência clínica com crianças separadas dos pais durante a Segunda Guerra Mundial, e os experimentos de Harry Harlow com macacos que preferiam uma "mãe" de pano sem comida a uma de arame com mamadeira, apontavam para outra coisa: o vínculo afetivo é uma necessidade biológica primária em si mesma, não derivada da alimentação.

O sistema comportamental de apego

Bowlby (1969) propôs que o apego é um sistema comportamental evolutivamente programado, cuja função adaptativa é manter o bebê próximo de um cuidador protetor — aumentando suas chances de sobrevivência num ambiente ancestral repleto de perigos. Choro, sorriso, agarrar-se e seguir são comportamentos de apego que evoluíram para ativar a proximidade do cuidador. O bebê não ama a mãe porque ela o alimenta; ele tem um sistema neurocomportamental dedicado a formar e manter esse vínculo, porque ancestrais que o tinham sobreviveram mais. A separação ativa ansiedade; a proximidade restaura a sensação de segurança — a "base segura" a partir da qual a criança explora o mundo.

A Situação Estranha de Ainsworth

Se Bowlby forneceu a teoria, foi Mary Ainsworth quem a tornou mensurável. Em seu procedimento experimental conhecido como "Situação Estranha" (Ainsworth & Bell, 1970), bebês de cerca de um ano passavam por uma sequência padronizada de separações e reencontros com o cuidador, na presença de um estranho. O que importava não era se o bebê chorava na separação — quase todos choram — mas como ele se comportava no reencontro. Esse momento revelava a qualidade do vínculo construído ao longo de meses de interação.

Ainsworth identificou três padrões (um quarto foi adicionado depois por Main e Solomon). No apego seguro, o bebê busca o conforto do cuidador no reencontro, é acalmado e retoma a exploração. No apego inseguro-evitativo, o bebê parece indiferente, evita o cuidador no reencontro — mas medidas fisiológicas revelam que sua angústia interna é igualmente alta, apenas suprimida. No apego inseguro-ambivalente, o bebê fica intensamente angustiado e, no reencontro, busca contato mas resiste a ser acalmado, misturando aproximação e raiva. O quarto padrão, desorganizado, caracteriza-se por comportamentos contraditórios e é associado a cuidado assustador ou negligente.

"Todos nós, do berço ao túmulo, somos mais felizes quando a vida está organizada como uma série de excursões, longas ou curtas, a partir da base segura proporcionada por nossas figuras de apego."

John Bowlby · A Secure Base, 1988

Sensibilidade materna e a origem dos padrões

A contribuição mais importante de Ainsworth foi correlacionar os padrões de apego com o comportamento observado do cuidador ao longo do primeiro ano. Cuidadores de bebês seguros eram, em média, mais sensíveis e responsivos aos sinais da criança — percebiam, interpretavam corretamente e respondiam de forma consistente. Cuidadores de bebês evitativos tendiam a rejeitar o contato ou a responder com desconforto à proximidade; os de ambivalentes eram inconsistentes, respondendo ora com sensibilidade, ora com indisponibilidade imprevisível. O padrão de apego, portanto, não é inato — é uma adaptação do bebê ao padrão de cuidado que efetivamente recebe.

Apego ao longo da vida e o que a evidência sustenta

A teoria foi estendida às relações adultas por Hazan e Shaver (1987), que propuseram que os estilos de apego infantil têm correlatos nas relações românticas adultas. Essa extensão é amplamente popular, mas exige cautela: a estabilidade do apego da infância à vida adulta é moderada, não determinística. Modelos internos de funcionamento — as representações mentais de si e dos outros formadas na infância — podem ser revisados por experiências relacionais posteriores, incluindo a psicoterapia. A teoria do apego é hoje um dos paradigmas mais validados empiricamente da psicologia do desenvolvimento, mas seu uso responsável evita o determinismo: os primeiros vínculos moldam, mas não selam, a vida emocional.

Referências primárias

1
Ainsworth, M. D. S., & Bell, S. M. (1970). Attachment, Exploration, and Separation: Illustrated by the Behavior of One-Year-Olds in a Strange Situation. Child Development, 41(1), 49-67.
doi.org/10.2307/1127388
2
Bretherton, I. (1992). The Origins of Attachment Theory: John Bowlby and Mary Ainsworth. Developmental Psychology, 28(5), 759-775.
doi.org/10.1037/0012-1649.28.5.759
3
Hazan, C., & Shaver, P. (1987). Romantic Love Conceptualized as an Attachment Process. Journal of Personality and Social Psychology, 52(3), 511-524.
doi.org/10.1037/0022-3514.52.3.511
4
Bowlby, J. (1969). Attachment and Loss, Vol. 1: Attachment. Basic Books.
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